a verticalidade do traço vermelho
Fiquei congelado a olhar aquele pequeno barómetro, ou seja lá qual for a sua designação pelo que mede, tão pouco isso importava naquele momento, era uma peça que via ao vivo a primeira vez - dado o meu faro fino, ou só por sorte. Pequeno e comprido como um termometro com dois mostradores que indicariam no máximo umtraço cada um.
Ela havia o deixado no chão e voltado as costas ao resultado. Eu tentei permancer tão inconsciente como havia estado até ali. Claro que não me seria completamente indiferente se aparecesse uma barra ou duas barras naqueles minusculos monitores. Tenho 27 anos, um curta vida por trás e outra pela frente que eu desejo tornar extensa até romper com esta liberdade condicionada por tudo, menos por filhos. Tenho filosofias, ideologias minhas, talvez tão iguais a tantos outros homens, adorarei ser pai - dizia - amarei quando nascer o meu filho(a), mas no seu próprio tempo, na sua própria altura, e isso será quando existir uma conjuntura perfeita para o ter (a mulher perfeita, o trabalho perfeito, a estabilidade perfeita, a casa, o carro, o barco perfeitos e o passaporte repleto de carimbos)... A vida por si demonstrou a amigos meus que o momento perfeito revela-se somente pelo nascimento da única razão de cá andarmos todos. Mas isso são os outros, pensava eu, Comigo não, Concordo com tudo isso, mas não estou preparado para ser pai hoje.
Olhei para o pequeno objecto enquanto uma pequena mancha de humidade percorria lentamente o mostrador- em breve um traço vermelho vertical revelar-se-ia do quadradinho, e eu passaria a saber que o teste estava a funcionar como suposto.
Ela andava pela casa nervosa. Demasiadamente nervosa para quem se baseia no infiável relógio hormonal. Afinal, o que é um dia? nada. Ouvi dizer que a algumas mulheres por vezes não lhes vem o periodo durante um mês inteiro, dizia eu. Era lúcido o engano que eu tentava fazer passar, Estou calmo, Não há motivos para alarde. OU HÁ?! olhei para o mostrador fracções antes de aparecer o resultado. E nesse instante recordei histórias de amigos meus que confessaram se sentirem aldrabados pelas namoradas que haviam tomado a liberdade de fazerem a opção "sejamos pais" sem os consultarem. Lembrei como todos cairam da mesma forma, na ingorância deles aparecia a futura mamã consciente que já o seria pedindo para fazerem o teste porque estava com suspeitas. Tantas vezes ouvi esta lição, pensei, como poderia cair nela. Retomei à memória o momento em que explodimos de extase, o dia seguinte em que ela se daria conta do esquecimento, e os acasos que poderiam ser anexados ao ficheiro das pistas se quisesse sentar no lugar de réu. As questões sobre as certezas e incertezas. Nesse mesmo instante ocorreu-me lhe perguntar como se havia lembrado de comprar o teste ainda não havia passado um dia sobre o atraso da sua menstruação, sexto (décimo!) sentido feminino, Suspeitas.
A inevitável forma da conspiração, sem perfil que assente na razão.
O que importa agora, como em todos os casos semelhantes, é preocupar-me como poderei eu estar preparado para aquilo que não estou pronto.
Sou pai - diria a linha vertical.
E ela desatou a chorar, de joelhos em cima da cama. E eu fingi calma que não tinha, coragem sobre o meu medo, para dar tranquilidade sobre a tempestuosa duvida. Acalmei-a como pude, com palavras que revelavam ingenuidade, ignorância que o futuro rasgaria com a frieza da apreendizagem prática.
Passaram três minutos. Cinco para aliviar. Aos dez, para ter a certeza, que podia descançar. E aos treze já eu acreditava na lógica que se fez no primeiro instante que li as instruções do pequeno aparelho de teste. Havia aparecido 1 linha, vermelha, vertical. E só. Eu não sou pai de ninguem - quanto saiba, confirmadamente, até ao momento em que escrevo esta crónica.
Libertei-me na alegria de não o ser, no desespero de poder refazer a minha vida como se algo tivesse efectivamente acontecido.
Retomei a minha inconsciência infantil, de ser adulto de mim próprio. E agradeci a mundos e estrelas zodiacas pela experiência, mais forte que o salto que fiz de para-quedas, mais gratuita que toda a adernalina junta que produzi nos ultimos tempos.
Já passou. - mais uma vez suspirei - não sou pai.
Deixei-me dormir nessa noite, aliviado. Contente. Recapitulando a minha vida no passado e na orientação futura, abreviando a desconfiança de ter podido ser levado por otário no velho conto da vigário - tivessem talvez sido lágrimas por já saber que a linha representava que não estava grávida, enquanto eu esperava na duvida... essa e outras certezas de... dúvidas!
Afinal, já havia passado.
Tentei adormecer...
... enquanto pensava.. se sonhasse eu que era pai.
Ela havia o deixado no chão e voltado as costas ao resultado. Eu tentei permancer tão inconsciente como havia estado até ali. Claro que não me seria completamente indiferente se aparecesse uma barra ou duas barras naqueles minusculos monitores. Tenho 27 anos, um curta vida por trás e outra pela frente que eu desejo tornar extensa até romper com esta liberdade condicionada por tudo, menos por filhos. Tenho filosofias, ideologias minhas, talvez tão iguais a tantos outros homens, adorarei ser pai - dizia - amarei quando nascer o meu filho(a), mas no seu próprio tempo, na sua própria altura, e isso será quando existir uma conjuntura perfeita para o ter (a mulher perfeita, o trabalho perfeito, a estabilidade perfeita, a casa, o carro, o barco perfeitos e o passaporte repleto de carimbos)... A vida por si demonstrou a amigos meus que o momento perfeito revela-se somente pelo nascimento da única razão de cá andarmos todos. Mas isso são os outros, pensava eu, Comigo não, Concordo com tudo isso, mas não estou preparado para ser pai hoje.
Olhei para o pequeno objecto enquanto uma pequena mancha de humidade percorria lentamente o mostrador- em breve um traço vermelho vertical revelar-se-ia do quadradinho, e eu passaria a saber que o teste estava a funcionar como suposto.
Ela andava pela casa nervosa. Demasiadamente nervosa para quem se baseia no infiável relógio hormonal. Afinal, o que é um dia? nada. Ouvi dizer que a algumas mulheres por vezes não lhes vem o periodo durante um mês inteiro, dizia eu. Era lúcido o engano que eu tentava fazer passar, Estou calmo, Não há motivos para alarde. OU HÁ?! olhei para o mostrador fracções antes de aparecer o resultado. E nesse instante recordei histórias de amigos meus que confessaram se sentirem aldrabados pelas namoradas que haviam tomado a liberdade de fazerem a opção "sejamos pais" sem os consultarem. Lembrei como todos cairam da mesma forma, na ingorância deles aparecia a futura mamã consciente que já o seria pedindo para fazerem o teste porque estava com suspeitas. Tantas vezes ouvi esta lição, pensei, como poderia cair nela. Retomei à memória o momento em que explodimos de extase, o dia seguinte em que ela se daria conta do esquecimento, e os acasos que poderiam ser anexados ao ficheiro das pistas se quisesse sentar no lugar de réu. As questões sobre as certezas e incertezas. Nesse mesmo instante ocorreu-me lhe perguntar como se havia lembrado de comprar o teste ainda não havia passado um dia sobre o atraso da sua menstruação, sexto (décimo!) sentido feminino, Suspeitas.
A inevitável forma da conspiração, sem perfil que assente na razão.
O que importa agora, como em todos os casos semelhantes, é preocupar-me como poderei eu estar preparado para aquilo que não estou pronto.
Sou pai - diria a linha vertical.
E ela desatou a chorar, de joelhos em cima da cama. E eu fingi calma que não tinha, coragem sobre o meu medo, para dar tranquilidade sobre a tempestuosa duvida. Acalmei-a como pude, com palavras que revelavam ingenuidade, ignorância que o futuro rasgaria com a frieza da apreendizagem prática.
Passaram três minutos. Cinco para aliviar. Aos dez, para ter a certeza, que podia descançar. E aos treze já eu acreditava na lógica que se fez no primeiro instante que li as instruções do pequeno aparelho de teste. Havia aparecido 1 linha, vermelha, vertical. E só. Eu não sou pai de ninguem - quanto saiba, confirmadamente, até ao momento em que escrevo esta crónica.
Libertei-me na alegria de não o ser, no desespero de poder refazer a minha vida como se algo tivesse efectivamente acontecido.
Retomei a minha inconsciência infantil, de ser adulto de mim próprio. E agradeci a mundos e estrelas zodiacas pela experiência, mais forte que o salto que fiz de para-quedas, mais gratuita que toda a adernalina junta que produzi nos ultimos tempos.
Já passou. - mais uma vez suspirei - não sou pai.
Deixei-me dormir nessa noite, aliviado. Contente. Recapitulando a minha vida no passado e na orientação futura, abreviando a desconfiança de ter podido ser levado por otário no velho conto da vigário - tivessem talvez sido lágrimas por já saber que a linha representava que não estava grávida, enquanto eu esperava na duvida... essa e outras certezas de... dúvidas!
Afinal, já havia passado.
Tentei adormecer...
... enquanto pensava.. se sonhasse eu que era pai.
Jan07
